Fabrício Pires

– Quando você começou a se interessar pelo bailado do mestre-sala e da porta-bandeira?

R: Minha família já frequentava o carnaval desfilando na Imperatriz Leopoldinense, Vila Isabel e Caprichosos de Pilares. Com essa proximidade, aos poucos fui tendo como referência os sambas enredos e o dia-a-dia das quadras. Em um ensaio de Pilares, quando o mestre sala oficial chegou e começou a bailar, pronto. Amor à primeira vista. Dois anos depois me tornaria o mestre sala mirim da Inocentes da Caprichosos

– Você aprendeu a dançar em uma escola voltada para a dança do mestre-sala e porta bandeira ou no ambiente familiar com algum parente/amigo mestre-sala? Em que ano isso ocorreu?

R: Meu início deu-se em 1991, no ano de fundação da escola mirim de Pilares. Participei de uma breve seleção com o Machine e uma semana depois eu já estava me apresentando oficialmente. Foram sete dias de treinos ininterruptos. Com o passar do tempo grandes mestres salas do carnaval me influenciaram. Em ordem cronológica Claudinho ex Império, Chiquinho ex Imperatriz e Peninha ex Salgueiro.

– Qual foi a primeira escola que você defendeu como mestre-sala? Lembra-se do seu primeiro ensaio? E como se deu o processo de ingresso nessa agremiação?

R: Inocentes da Caprichosos com 10 anos de idade. Primeiro ensaio foi de chinelos, short, camiseta e a bandeira era um saco plástico grande e muita determinação. Foi na casa de uma tia minha. Bons tempos, sem glamour. Apenas vontade e paixão.

– É claro que todas as escolas têm sua importância e sua parcela de contribuição para o carnaval e para cultura nacional, mas temos que concordar que defender o pavilhão portelense tem um quê de especial. É uma honra dada a um seleto grupo de talentosos mestres-salas. O que mais te marcou em seu primeiro ano como mestre-sala da Portela? Tem alguma passagem curiosa/interessante que você viveu nas terras de Natal e que você gostaria de compartilhar conosco?

R: De fato, salvaguardar o pavilhão portelense é diferente, é místico. Muitas coisas me impressionaram, lá muito aprendi. Talvez, algo que me impactou diretamente foi naquele momento perceber que a Portela é tão grande, mas tão grande que é quase uma religião e isso assusta. Uma passagem que eu gosto foi quando na inauguração de um grande empreendimento onde a escola foi convidada com seu casal, sua bateria, seus baluartes, etc.

Eu fiz questão de trajar preto na solenidade e fui duramente criticado por um grupo de baluartes da escola. Posteriormente um deles, em particular comigo, veio me indagar sobre o motivo de trajar preto já que tradicionalmente o portelense usa o azul e branco. Respondi que exatamente por respeitar as tradições da escola me trajei daquela maneira. Paulo da Portela fundador usava e pedia para que os sambistas fizesse o mesmo para mostrar as autoridades da época que sambista não era vagabundo. Usava terno preto em sinal de protesto aos mandos e desmandos contra a o povo do samba.

O baluarte, nobre amigo, gaguejou,pensou e por fim apertou a minha mão e pediu desculpas.

– Gostaria que você fizesse um breve balanço a respeito da sua passagem pelo Tigre de São Gonçalo e dissesse como esse momento da sua carreira contribuiu para o seu crescimento profissional.

R: A passagem pelo Porto da Pedra foi feliz! Pela primeira vez trabalhando junto com o Coreógrafo Bonifácio Júnior, realizamos um ano inteiro de bons projetos e um belo desfile. Tivemos um dos figurinos mais bonitos do carnaval que nos permitiu também uma evolução bastante fluida. Meu balanço é bastante positivo.

– De Madureira para o Campinho. Sua passagem pela Caçulinha Guerreira, numa época onde (diferente dos dias atuais) os fantasmas do passado insistiam em rondar a Clara Nunes e a Intendente Magalhães, garantiu a você o feito que na década de 1980 seria impensável. O mesmo mestre-sala, bandeiras ligadas por sangue e por uma dissidência. Como foi pra você poder estar ali vivendo a história? O que agregou pra você, profissional e pessoalmente, ser mestre-sala da Tradição?

R: Mais uma vez a tradição e a história me fizeram aprender e progredir cada vez mais. Na época a escola tinha acabado de perder uma referência, o Julinho, e para seu lugar fui contratado.

Foi um projeto diferente. A idéia era o início de um novo ciclo e com uma porta bandeira nova. Foram momentos de muito trabalho, de seriedade e de empenho o que resultou em um trabalho frutífero. Infelizmente a direção da escola não tratava a agremiação com a mesma seriedade que o casal tinha.

– Você diria que a São Clemente, jovial e brincalhona, deu um novo “gás” a essa nova fase da sua carreira? Seu casamento com a Preta e Amarela tem proporcionado belos espetáculos ao público que vai à quadra e à Sapucaí. Você acha que a continuidade do trabalho, e a manutenção dos casais numa mesma escola, é a grande responsável por esse tipo de resultado?

Falar da São Clemente é falar de alegria! Tenho orgulho e muita motivação em defender à preta e amarela. A escola se fortalece a cada ano e neste sentido o casal ganha identidade com as cores também.

Encontrei uma família na direção que muito antes de serem dirigentes, são apaixonados pela escola. Isso faz diferença, isso trás vida a escola e esperança aos seus componentes.

Eu sempre tive a sorte e a competência de dançar com grandes portas bandeiras e a Denadir, em particular, creio que não preciso falar muito. É só ir à quadra e ver o que aquela menina faz, é fantástica!

A manutenção do casal faz sim toda diferença! Esse troca-troca todo ano desgasta e fragiliza as relações. Vejam que beleza Claudinho e Selminha em Nilópolis é identidade, é respeito ao pavilhão.

– Fale-nos um pouco sobre a sua passagem pela Estrela guia de Padre Miguel.

R: Outro momento importante e mágico da minha carreira. Fui defender um pavilhão que estava desacreditado, uma escola com uma série de problemas internos. Porém ,o simples fato de ser Mocidade Independente nos possibilitou um belo desfile. Por lá tenho muitos amigos e admiradores. O que mais me chamou a atenção em Padre Miguel é sua legião de torcedores apaixonados e que de fato contribuem sempre da melhor maneira para o sucesso da escola. A escola me abraçou e me sentia em casa. Isto posto,essa relação de hospitalidade é fundamental para o sucesso do trabalho.

– Você acha que, tal como o talento, o caráter e a cumplicidade são decisivos na hora de formar um casal de mestre-sala e porta-bandeira de sucesso?

R: São fundamentais. A dança necessita de envolvimento e confiança. Isso fica evidente na apresentação de qualquer casal. Não consigo assimilar estão coisas desconexas. O universo do carnaval é difícil demais ,creio que o ponto que explique as grandes dificuldades seja excesso de vaidades. Desta maneira,esta briga de vaidade faz com que as pessoas se tornem amargas,infelizes e com vida medíocre. Necessitam sempre parecer bem e superior para que se sintam bem. Na verdade, trata-se apenas de uma fuga para amenizar a dor e o sofrimento.

Neste sentido, com a necessidade de estar sempre bem, “puxam” o tapete de todos e se preciso for do parceiro(a). Exatamente por isso não creio que uma parceria possa funcionar sem confiança, sem caráter e sem cumplicidade.

– No que o Kung Fu, além da preparação física, contribui para a sua dança?

R: Aprendi desde cedo, no universo da marcialidade,que foco e disciplina são base para qualquer trabalho bem sucedido. Então ,desta forma pautei minha caminhada. Assim o Kungfu me ajuda e me dá condições principalmente psicológicas para enfrentar o dia-a-dia. Aprendi a olhar de fora e ver o problema por outros ângulos antes de me deixar contaminar.

– A oralidade cultural, processo de transmissão de conhecimento por histórias faladas e/ou não escritas, é uma das fortes características do samba. Por esse motivo, a dança do mestre-sala e da porta-bandeira pode ter várias origens diferentes, dependendo da fonte consultada. Qual foi a história que lhe contaram quando da sua iniciação no samba?

Me contaram várias. Não tenho uma linha de pensamento específica para a criação e desenvolvimento de nossa arte. Penso ser um misto de manifestações culturais que foram se desenvolvendo até chegar onde chegamos. Em linhas gerais a idéia dos escravos tentando a imitação da dança da corte é bem aceita pois mistura a elegância com a malemolência.

– Como a sua seriedade e postura, inerentes a um atleta, te ajudaram a lidar com os desmandos de diretores e dirigentes ao longo de sua trajetória? Qual o conselho que você daria aos que estão começando e que sofrem, em especial nos grupos de acesso, com a austeridade e desmandos de suas diretorias?

Essa seriedade e postura que você meciona é lida por muitos como arrogância e prepotência. Sempre digo que julgar é fácil porém conhecer é complexo. Exatamente por eu ser assim consegui criar um espaço de respeito entre minha pessoa e todos os presidentes/diretores com quem trabalhei. Faço questão de impor um limite seguro de respeito entre as partes. Com o tempo eles percebem que não se trata de arrogância mas sim de zelo pelo meu trabalho, pela minha função.

A minha dica para os novos é que com educação mostrem para seus presidentes que devemos ser respeitados e ouvidos.

-Você prefere o leque, o bastão, o lenço ou as mãos livres na hora de dançar?

Já desfilei usando todos eles. Hoje em dia uso o bastão(cetro). Em 2015 vou dar uma leitura nova ao uso destes instrumentos. Estou estudando isso com calma.

-As fantasias hoje em dia vão de acordo com a imaginação do carnavalesco, são repletas de cores e diferentes formas. No entanto, a escolha da chamada “roupa de quadra” é de responsabilidade do casal, você acha que usar as cores da escola nessas roupas é fundamental?

Acho fundamental sim. Penso também que, se vestir o branco, o mestre sala sempre vai acertar

– Qual a importância do trabalho desenvolvido por Mestre Dionísio, Mestre Galo e Selminha Sorriso no que tange a dança do mestre-sala e da porta-bandeira?

Sem esses trabalhos, a arte do mestre-sala/porta-bandeira com o tempo se tornaria extremamente escassa. Fico feliz de verdade por estas pessoas que tanto oferecem de bom para nossa causa. Aliás, quando eu comecei não era comum tantos jovens aprendendo a dança. Éramos a minoria!

– Qual foi o desfile mais marcante da sua carreira? Por quê?

Portela 2009. Era meu retorno ao Grupo Especial. Foi tudo muito difícil o ano todo.

– O que você considera inadmissível para um mestre-sala? (Tanto na dança como na conduta)

Na dança: querer ser mais que a porta bandeira e confundir o bailado do mestre sala com a de um passista. Nós dançamos para a PB e em função dela. Na conduta: o excesso de vaidade.

– Você acha que a crescente profissionalização do carnaval faz com que uma possível regulamentação da profissão de mestre-sala e a de porta-bandeira seja alcançada? Você enxerga isso como uma vantagem ou o simples fato de hoje em dia existirem contratos já é o bastante para resguardar os casais em qualquer eventualidade?

A regulamentação, ao meu ver, é o caminho.

– Em um passado não muito distante, a posição de mestre-sala não era remunerada e a “troca” de escola dificilmente acontecia. Historicamente, isso se explica pelo fato de os mestres-salas daquela época serem moradores e muito ligados as comunidades que defendiam. No cenário atual do carnaval não cabe mais a não remuneração de mestres-salas e porta-bandeiras, no entanto, por vezes o coração fala mais alto do que as propostas de outras escolas. Você acha que, ainda hoje, existam aqueles que recusam ofertas generosas e optam por ficar em suas escolas, seja por comodidade ou por pura predileção?

Definitivamente dinheiro não é o principal fator para troca ou permanência em uma agremiação. Condições de trabalho e uma atmosfera acolhedora são tão importantes quanto o dinheiro. Essa é minha avaliação e minha conduta quanto a esse assunto

– Qual a sua opinião em relação à introdução do ballet na dança e a presença, cada vez mais constante, de coreógrafos e “preparadores” que por vezes parecem querer desviar a atenção do público para eles? Encomenda-lhe quando esses profissionais tomam a frente dos casais e tentam, por vezes, impor uma linha de trabalho com base em um conhecimento genérico e superficial?

Sou a favor dos coreógrafos e preparadores dos casais. Necessitamos de alguém que minimamente tenha alguma vivencia em dança para ajudar a nos nortear.

O problema é quando os coreográfos/preparadores pretendem impor uma linha de evolução que os casais não aceitam. É preciso que se entenda que ninguém mais entende do quesito que os próprios que dançam. Durante anos desenvolvemos uma arte empírica e subjetiva. A técnica vem ajudar mas não deve ser o ponto principal. A coisa é solta,malandreada,fluida e se a técnica breca isso, dá tudo errado.

-Existe algum procedimento/cerimonial que na época que você começou a dançar era executado e que hoje em dia tenha se perdido?

Não que tenha se perdido mas esta em desuso:

O mestre sala sempre carrega a bandeira quando não está em evolução com a porta bandeira.

O casal “cumprimenta” os quatro cantos da quadra antes da dança em si.

– Qual foi o momento mais difícil de sua carreira?

Portela 2009 mas não gostaria de entrar em detalhes pois isso já foi superado.

– Chegamos ao fim das perguntas e gostaria de deixá-lo à vontade para compartilhar conosco alguma experiência ou ponto de vista que você considera válido deixar registrado para as próximas gerações de sambistas. (Curiosidades pessoas, fatos históricos, regras não escritas que fazem parte do dia a dia de um casal em uma escola de samba e etc..)

Gostaria de usar esse momento final para agradecer por esta oportunidade em falar um pouco sobre minha trajetória e minhas impressões. Temos carência na produção deste tipo de material e iniciativas assim nos proporcionam manter um legado vivo.

Minha sugestão é escutem a voz da experiência. Eu faço isso e me permite ter mais clareza na condução da carreira. Fica aqui também registrado o meu mais profundo respeito aos mestres salas mais antigos que cada um com seu estilo nos permitiu elevar nossa arte mais e mais. Sempre um mais experiente vai ter uma visão um pouco mais apurada que a nossa e desta forma vamos aprendendo e crescendo.